Espetáculos






A Decisão: Peça Didática de Bertolt Brecht

A Decisão é uma peça didática (Lehrstück) escrita por Bertolt Brecht em 1929. O espetáculo propõe um questionamento às relações humanas e sociais nas quais estamos inseridos. O pano de fundo é o processo revolucionário ocorrido na China. A escolha do texto partiu da necessidade do Grupo de discutir as relações entre práxis individual e práxis coletiva. A montagem, que traz a cena uma vivência de aprendizagem, resulta em um espetáculo dinâmico e com musicalidade envolvente que, através de um pensamento dialético, nos coloca diante de conflitos e paradoxos gerados pela relação entre indivíduo e coletivo. Os pontos de vista são vários, e o público, disposto em arena total, é convidado a refletir segundo a sua visão.

O espetáculo participou de projetos realizados pela Prefeitura de Porto Alegre, como: Novas Caras, Teatro Aberto e Teatro Fora do Eixo. Cumpriu temporada na sala 309 da Usina do Gasômetro e participou do I Festival de Teatro Popular, em Porto Alegre, entre outras apresentações.

Sinopse

A história começa com o retorno de quatro agitadores à Moscou, depois de sua colaboração na revolução comunista da China. Ao chegar, comunicam ao Coro do Partido a morte de um jovem Camarada, morto por eles próprios. Os agitadores exigem uma sentença. Os fatos são, a pedido do Coro, narrados e representados pelos agitadores para que se chegue a uma resolução.

 

Ficha Técnica

Espetáculo realizado em arena
Texto: Bertolt Brecht
Adaptação do texto: Grupo Trilho de Teatro Popular
Direção: Grupo Trilho de Teatro Popular
Elenco: Ana Campo, Caroline Falero, Daniel Gustavo, Drica Lopes, Fábio Castilhos, Gil Do Santos, Giovanna Zottis. (Substituição: Cristiano Morais)
Músico: José Carlos Junior (Substituição: Gabriel Gorski e Sergio Baiano)
Trilha Sonora: José Carlos Junior
Figurino e elementos cênicos: Grupo Trilho de Teatro Popular
Iluminação: Bruna Immich
Produção: Grupo Trilho de Teatro Popular
Faixa etária: 14 anos
Duração: 60 min

 

Crítica

A Decisão
Por Jorge Arias

"A Decisão" é uma das peças "didáticas" de Brecht, e uma das mais difíceis de engolir. (...) o Grupo Trilho de Teatro Popular põe o público no palco, longe das poltronas, em meio à ação. Deliberadamente, as diferentes posições são trocadas: todos os atores são, sucessivamente, o Jovem Camarada e seus juízes. Uma das peças mais provocativas, mais indigeríveis deste Festival de Teatro Popular. Ela fica nas vísceras; vai fazer parte de nosso corpo. (...) Cremos que, entre todas as apresentações do Festival, “A Decisão” é o trecho que, com mais força e paixão, impõe o pensamento, discussão das ideologias, a luta de conceitos. É impossível não sentir, nem sequer fingir indiferença ante ela. É o triunfo da ideia de teatro que teve Brecht.

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"A Decisão" é uma das peças "didáticas" de Brecht, e uma das mais difíceis de engolir. É mais fácil fazer uma palestra sobre o teatro dialético de Brecht que encená-lo. A transição ao socialismo não é sem lágrimas. Um companheiro, um comunista das primeiras horas, o Jovem Camarada, deve morrer. Sua conduta conteve um erro; e ele aceita o castigo necessário. Em "A Decisão" o espectador está nas antípodas do teatro comum, do teatro, como dizia Brecht, "culinário". Minuto por minuto, devemos nos decidir. Acompanhará o espectador uma decisão, que é a morte? E com que direito foi tomada? O que faria num caso parecido? "A Decisão" não é uma justificação, antes dos fatos, de Stalin e dos processos de Moscou? Do começo ao fim Brecht, fiel ao seu espírito de controvérsia, pôs intranquilidade no palco. As cadeiras já não são cômodas; e o Grupo Trilho de Teatro Popular põe o público no palco, longe das poltronas, em meio à ação. Deliberadamente, as diferentes posições são trocadas: todos os atores são, sucessivamente, o Jovem Camarada e seus juízes. Uma das peças mais provocativas, mais indigeríveis deste Festival de Teatro Popular.

Ela fica nas vísceras; vai fazer parte de nosso corpo. Não lhe interessa nossa alma.

Cremos que, entre todas as apresentações do Festival, “A Decisão” é o trecho que, com mais força e paixão, impõe o pensamento, discussão das ideologias, a luta de conceitos. É impossível não sentir, nem sequer fingir indiferença ante ela. É o triunfo da ideia de teatro que teve Brecht.
Crítica escrita dentro do Festival de Teatro Popular, realizado em Porto Alegre em 2010.

 

A Decisão
Por Rodrigo Monteiro

O Grupo Trilho é corajoso em dizer através do teatro. É corajoso em re-dizer Brecht, em enfrentar as oito décadas que nos separam desse texto, em aproximar o público de Porto Alegre de um lugar onde a revolução comunista é uma realidade que passa pelas portas e enche os travesseiros. (...) O grupo formado por oito atores e (in)(ex)formante de vários signos concentrados é mais uma grata surpresa desse projeto “Novas Caras” que, pela segunda vez esse ano, é muito bem-vindo. Não há um figurino fora de centro, um adereço que não seja interessante, um foco de luz que não cumpra seu papel. A trilha está composta para dar leveza na hora certa e enfatizar a atenção naquilo a que devemos prestá-la.

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A liberdade é nada mais que a liberdade de fazer o que você sabe que tem que ser feito.
O Grupo Trilho é corajoso em dizer através do teatro. É corajoso em re-dizer Brecht, em enfrentar as oito décadas que nos separam desse texto, em aproximar o público de Porto Alegre de um lugar onde a revolução comunista é uma realidade que passa pelas portas e enche os travesseiros. O que temos a ver com isso?

Lula é o nosso presidente e é fundador do partido dos trabalhadores. A América do Sul é quase toda governada por partidos que outrora se disseram de esquerda. Barack Obama, presidente dos States, gosta de Lula e da América Latina. O presidente do Irã, que não gosta de judeus, nem de homossexuais e enforcou uma pintora em praça pública na manhã de ontem sem provas está no Brasil. Americanos já podem viajar para Cuba. Hugo Chavez será o novo presidente ditador “queridão” da Venezuela. E ouve-se dizer que Bin Laden já morreu.

Esse ano não trocaram o terno de Lenin...
E um grupo de teatro me vem falar de comunismo, de camaradas, de panfletos e de perseguição política... Se o fosse o “Bailei na Curva”, nos fazendo chorar com Roberto Carlos, pantalonas e cubas libre pelos desaparecidos na ditadura direitíssima do Brasil até vá lá... Mas Brecht!?
Ts Ts Ts...

Grupo Trilho de Teatro Popular: embora um trilho só tenha dois lados, pois um trem só pode ir ou só pode vir, mas nunca andar na transversal, o grupo do Bairro Humaitá, abre um espaço na platéia que tem quatro lados e nenhuma parede. Como com aqueles que geralmente vêem o trem passar, os atores sem diretor assinante, passam por todos os lados do trilho aberto, incluindo embaixo e em cima, dentro e fora. Dentro e fora de todos os signos que eles mesmos, puxando do texto, os fazem nascer na Cidade Baixa, no teatro da Rua da República, depois do Pingüim, depois do Jóia, quase em frente ao Namastê, antes do Pão dos Pobres. Ao lado de uma escola.

“Aquele que diz sim, aquele que diz não: a decisão” é uma peça tipologicamente enquadrada como didática. O grupo formado por oito atores e (in)(ex)formante de vários signos concentrados é mais uma grata surpresa desse projeto “Novas Caras” que, pela segunda vez esse ano, é muito bem-vindo. Não há um figurino fora de centro, um adereço que não seja interessante, um foco de luz que não cumpra seu papel. A trilha está composta para dar leveza na hora certa e enfatizar a atenção naquilo a que devemos prestá-la.

Mas, uma atriz erra o texto. Ana Campo errou o texto mais que um par de vezes.

Não. Eu não lia o texto durante a encenação. Não. Eu não sou daqueles que acham que o texto é um deus intocável. Não. Eu só não gosto quando erram o texto. E Ana Campo errou ele...

Ts Ts Ts...

Atingem o alvo todos os esforços do grupo. Menos aqueles que dizem respeito à corporificação da palavra, o transformar em teatro o que é literatura. Para isso, Brecht aproxima o público do seu texto: porque não quer o texto. Por isso também que essa é uma fábula didática porque quem aprende não é o público, mas todos.

A peça didática ensina quando se atua e não quando se é espectador (KOUDELA, 1991: 13)”, sob essa afirmação Steinweg parte do princípio de que a peça didática é constituída de uma “regra básica” e de uma “regra de realização”. A primeira se norteia pela idéia de uma atuação sem espectadores, onde os próprios encenadores seriam atuantes e observadores de uma seqüência de ações realizando assim uma análise crítica das atitudes e comportamento. A segunda regra se norteia por padrões estéticos que são válidos para a construção de personagens nas peças épicas de espetáculo*.

Assim, é uma pena que só em algumas cenas cada ator se destaca como dominadores da palavra que pronunciam: Daniel Gustavo na cena do charuto, Fábio Castilho quando se revolta, Giovana Zottis na cena do diretor e Drica Lopes (ótima exceção) em quase todas as suas cenas. De resto, é monótono ver sete pessoas dizendo palavras que não combinam com um corpo enquanto uma pessoa brilha.
E quando palavras combinam com o corpo, fica-se nítido que tudo o que é dito é um erro que poderá virar um acerto depois que sair da boca. Acertar ainda na língua é coisa de quem lê ou de quem faz tragédia grega ou texto clássico.

Ana Campo é minha ídola! Salve, Ana Campo! Livre do dramaturgo alemão dos anos trinta, mas com ele mais que todos!

Viva a Revolução!

Texto publicado originalmente em: http://teatropoa.blogspot.com.br/2009/05/decisao.html

 

A decisão - O teatro didático de B. Brecth
Por Modesto Fortuna

Anos-luz distante da diversão perdulária, o Grupo Trilho, com muita coragem e determinação, enfrenta bravamente a tarefa de apresentar uma peça que além de antiga é política até a raiz, e, mais do isso, propõem-se a demonstrar a função pedagógica do teatro. (...) Fidelíssimos ao autor, o Grupo Trilho segue à risca suas indicações. Utiliza um recurso estipulado por Brecht: “cada um dos quatro atores deve representar o jovem (o protagonista) numa das quatro cenas principais.”

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Inegavelmente a peça dá o seu recado favorável à revolução. Os atores são fiéis a sua missão e se entregam com energia e paixão. (...) A parte musical do espetáculo é executada com prazer e vigor.

“Os filósofos até então apenas interpretaram o mundo; trata-se agora de transformá-lo.”
Karl Marx

 

“É que, parece, não existe a possibilidade de modificar o público burguês: quando um homem burguês (e quem não o é?) entra num teatro, de certo modo se despede da vida, esquece o mundo “exterior”, e pede a sua dose de diversão. Brecht dá agora um passo radical: se não dá para mudar o público, invente-se um novo público, e, se nem isso for possível, então, mais simplesmente, cometa-se o crime perfeito e suprima-se até mesmo a ideia de público. E é assim que surgem as peças didáticas. (...) abandona-se aquela diversão perdulária, e fica-se com a seriedade do pedagógico, com o exercício ascético da racionalidade.”
Gerd Bornheim

Anos-luz distante da diversão perdulária, o Grupo Trilho, com muita coragem e determinação, enfrenta bravamente a tarefa de apresentar uma peça que além de antiga é política até a raiz, e, mais do isso, propõem-se a demonstrar a função pedagógica do teatro. Trata-se de “A Decisão”, escrita em 1930, pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que, mais ou menos nesta época escreveu outras peças que se inserem na classificação de peças didáticas, tais como “O Vôo de Lindberg” e “Aquele que diz sim”, ambas de 1929.

O Professor Gerd Bornheim, em seu livro Brecht, A Estética do Teatro, observa que “o sucesso de Brecht com as peças didáticas, sobretudo em colégios, era muito grande, o que o encorajava a continuar explorando o rico filão.” Entretanto, o mesmo autor comenta que “A Decisão” já é uma peça muito ligada ao Partido Comunista”, e que a partir desta peça Brecht abandona os colégios e se volta para os sindicatos operários.

Fidelíssimos ao autor, o Grupo Trilho segue à risca suas indicações. Utiliza um recurso estipulado por Brecht: “cada um dos quatro atores deve representar o jovem (o protagonista) numa das quatro cenas principais.”
Inegavelmente a peça dá o seu recado favorável à revolução. Os atores são fiéis a sua missão e se entregam com energia e paixão. Nem todas as interpretações são convincentes. O desnível entre os atores é enorme.

A parte musical do espetáculo é executada com prazer e vigor.
Achei que o espetáculo caiu um pouco no final. Tudo parece ser uma repetição do que já foi dito e visto. Não sei se é a peça que cansa ou se me afastei do espetáculo quando Brecht diz que o jovem devia mesmo ter sido morto porque colocara o sentimento à frente da razão, e que por agir de forma impulsiva, passional e romântica comprometia o processo revolucionário e, principalmente, o partido, sendo necessário seu desaparecimento. Aí é demais, E, seu Brecht?

Texto publicado originalmente em: http://modestofortuna.blogspot.com.br/2009/06/decisao-o-teatro-didatico-de-b-brecth.html